Sexualidade na ótica evangélica atual: onde entra o pecado?

Um casal cristão fundou uma “sex shop”, um empresário inaugurou um “bordel” apenas com bonecas do tipo “real doll”, pastores liberam filhos para transar antes do casamento, enfim, onde entra o pecado disfarçado na Cristandade?

Esta é uma questão por demais “capciosa” para a grande massa de cristãos a captarem em sua totalidade, dada a sutileza com que as orientações morais deixam escapar, involuntariamente, o “X” da questão para o pleno atendimento da vontade de Deus, a saber, a nossa santificação. Discursos como o da gravidez indesejada, dos riscos de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), da proibição do sexo antes do casamento, da exigência de vida consagrada, do respeito à igreja e aos pastores, da obediência aos pais e até ao Evangelho, tudo isso, convenhamos, ainda deixa de fora O CERNE ou o centro propriamente dito da questão, por incrível que pareça, e a verdade jaz numa omissão até certo ponto involuntária.

Porquanto uma atitude ou conduta deixa de ser “normal” – ou legal, pela Lei de Deus – não quando simplesmente um jovem, louco de tesão por sua namorada recente, impede-se de tocar nela ou até de aproximar-se da casa dela, muitas vezes num processo inconsciente de auto flagelação, como em obediência a um suposto “respeito” a um Evangelho ascético e quase “muçulmano” das hipocrisias islâmicas. Porque a santidade desejada por Deus está longe de ser mera proibição aos instintos mais primitivos do bicho-homem, e se Deus fosse operacionalizar sua contabilidade escatológica por essa ótica, o mais lógico teria sido criar um “Zoológico Celestial” e não um Reino Humano para seres racionais civilizados.

Fica evidente, pois, que a Santidade de Deus e a que Ele exige de nós ultrapassa em gênero, número e grau o nosso conceito de santidade, e certamente não reside especificamente na mera interrupção da liberdade de nossos instintos, e nem mesmo em atitudes frontais de fuga dos prazeres, os quais são o ingrediente básico da felicidade de seres gregários como os humanos. Aqui como lá é exata a noção de que “o buraco é mais embaixo”, e é nele que queremos chegar para ajudar o leitor cristão a identificar bem o âmago da vontade santificadora de Deus.

Nem mesmo a louvável ordenação de homens e mulheres para a vida consagrada no meio católico romano (onde nem padres nem freiras podem casar) coincide rigorosamente com aquele “X” da questão que citamos no início, e a nossa dificuldade nessa questão é justamente encontrar “o ponto nevrálgico” deste entendimento, porquanto no sexo em si não haveria PROIBIÇÃO ALGUMA da parte de Deus, se esta tivesse que contar com uma auto flagelação voluntária por parte do ser humano. O buraco é mais embaixo mesmo.

Isto posto, talvez possamos dizer agora que a atitude do voluntariado para chegar a satisfazer a santificação verdadeira, teria que possuir componentes 100% conscientes na plena lucidez da mente humana, de tal modo que um homem ou mulher que procurassem ser santos entenderiam perfeitamente que a santidade só é alcançada quando a Razão (ou a mente lógica), aliada a um coração que conseguiu ser calmo e feliz, descobre que toda a ontologia do ser tem que corresponder ao controle racional e tranquilo de um “eu-consciente” em paz com seu eu-subconsciente, de maneira que ter poder para evitar o uso do corpo apenas para prazeres “da carne” daria o inefável prazer de sentir a vitória tranquila do eu-superior, a qual estamparia a mensagem mais elevada de toda a Criação, a saber, a de que cada eu-superior deve MANDAR E COMANDAR toda a sua ontogonia, e não as circunstâncias fortuitas das relações exteriores.

Noutras palavras, podemos adiantar um pouco as coisas para tentar dar um exemplo prático dessa difícil questão. Pensemos num padre jovem e bonito como o Padre Fábio de Melo. Onde está a santificação daquele padre? Ora; a santidade daquele irmão não estaria no mero fato de ele RECUSAR ir pra cama com as mulheres que o convidam! Nada disso! Sua santidade estaria na força da alegria que ele sentiria em dar uma resposta DIFERENTE de tudo o que o mundo lhe induz a fazer, no prazer de ver que ele mesmo é o seu “senhor”, ou que ele mesmo é o dono de si, e que sua própria mente é que manda nele e não o seu órgão sexual! Ou seja, que ao mesmo tempo ele estaria a um passo de dar e sentir todo o prazer do sexo imaculado do matrimônio, mas ao mesmo tempo está a um passo de negar aquele prazer para qualquer pessoa, inclusive uma possível candidata a um matrimônio aos pés de Deus!

Enfim, é ESTE controle, o controle voluntário do eu-superior, feito com alegria e prazer, que caracteriza a santidade perfeita que Deus deseja, e por isso somente uma instituição “oficializa” uma oportunidade de ouro para que este tipo de santidade seja exercida neste mundo libidinoso, a saber, o Celibato Católico. Porquanto o Celibato a rigor NÃO DEVERIA OBRIGAR à abstinência sexual, pelo menos se o Catolicismo contasse com padres tão consagrados que nem necessitassem de leis para serem santos. De qualquer modo, como muitas boas obras só são “despertadas” por força de lei (Romanos 2,12-15; 3,20; 7,5-6; 7,22 etc.), fez bem a Igreja em impor o Celibato como condição para o serviço presbiteral, para pelo menos despertar as consciências para o real sentido do autodomínio.

Com efeito, agora poderá estar um pouco mais claro este segredo: “não é nem propriamente pelo ‘agir santo’ e nem pela negativa do santo que o verdadeiro santo prova a sua santidade, mas é por sentir paz e felicidade em sua decisão pessoal de manter-se firme diante de um desejo, sem qualquer influência do objeto desejado”. O padre que nega ir para a cama com uma linda mulher não está sendo santo apenas por não ir, mas por ter dado a resposta que prova que NÃO FOI VENCIDO pelo sexo, mesmo quando toda a sociedade acha a estonteante moça uma dessas “poderosas” da high society. I.e., a poderosa não tem poder algum sobre ele, pois todo o poder é dele mesmo sobre seus instintos.

Isto posto, agora podemos abordar o tema que mais tem inquietado a cristandade hoje em dia, a saber: “Sexualidade na ótica evangélica: onde entra o pecado? Ou até que ponto pode ir um casal cristão casado na igreja em suas fantasias eróticas?” (confira AQUI o quanto o tema está gerando inquietação). Ora; aqui se encaixa perfeitamente o que explicamos nos parágrafos anteriores.

A regra do controle feliz e consciente de toda a ontologia do ser humano deverá ser sempre a Lei final a imperar em nossa alma. Pois bem. Tendo de fato esta lei e se esta lei estiver em plena operação na alma do cristão, a regra seguinte é COMBINAR com o cônjuge ou com a cônjuge, dentro das liberdades cristãs do amor marital, até que ponto cada um deseja certas coisas ou até que ponto cada um pode prescindir delas, para o bem maior da espiritualidade desejada por Cristo. Neste sentido, os melhores exemplos seriam o de cônjuges evangélicos: (1) irem a motéis; (2) usarem “real-dolls”; (3) praticarem sexo anal; e/ou (4) praticarem sexo oral.

(1) Perfeito, e plenamente possível; exceto se o ambiente não for seguro ou higiênico. Como ninguém tem escrito na testa “sou evangélico”, não deve haver razão para evitar um motel (sobretudo com os carros de vidros negros de hoje) que se localize longe das vistas dos crentes neófitos da igreja. Mas é bom evitar motéis próximos, pois mesmo crentes veteranos sempre tendem a julgar mal irmãos que curtem sua fantasia “motelesca”.

(2) Do mesmo modo quanto aos motéis, se a “boneca” puder ser comprada em total sigilo e puder ficar longe das vistas de todos, não há razão para não usá-las. Também igual aos motéis, elas precisam sempre ser higienizadas para garantir sexo seguro, apenas para curtição de uma fantasia consentida e bem compreendida pelo casal. A boneca poderá ajudar a evitar sexo DURANTE a menstruação e até a prática de sexo anal, caso a esposa não tenha consentido com este.

(3) Já respondida no item anterior, e, na única hipótese possível para o sexo anal com a esposa: i.e., somente com o pleno consentimento dela e até com o tesão dela (muito mais importante para a decisão do marido), e somente com o uso de lubrificante, aplicado sobre uma camisa de vênus, dada a enorme possibilidade de infestação do pênis/uretra com micro organismos próprios do ambiente anal.

(4) Dentro da regra do pleno consentimento, o sexo oral nem deveria ser tabu para cristãos. E mais: ele deve ser diferenciado de todas as outras práticas sexuais, tanto por sua maior naturalidade (todos os animais o praticam), quanto por sua maior utilidade, pois é um dos ingredientes mais decisivos para suscitar o desejo, fator-chave para uma relação ultra feliz.

Finalmente, e guardadas as devidas restrições de ordem classificatória deste assunto (este artigo deve ser encarado como proibido para menores), o sexo conjugal foi o mais poderoso dispositivo criado por Deus para deixar vivo, em nossa memória, o quanto é feliz a Pátria celestial, e o quanto as almas serão muito mais felizes no Paraíso com a vida eterna, aquele lugar santíssimo em que habitaremos com o próprio Senhor construtor do universo. Se alguma vez nós cristãos ficamos em dúvida quanto ao lugar do pecado na “sexualidade evangélica”, nenhuma dúvida devemos ter quanto ao lugar da santidade na religiosidade cristã. O que disto passar, vem do maligno.

 

Sobre John Valente

Prof. John Valente - Especialização: relacionamento conjugal cristão; Formado em Administração de Empresas e Teologia, especializou-se em Ciências da Religião, e participou de diversos cursos e treinamentos na área de relacionamento conjugal, inclusive o Seminário de Relacionamento Afetivo da “Agência de Casamento” que lhe apresentou à sua esposa.
Esta entrada foi publicada em Casamento. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Uma resposta a Sexualidade na ótica evangélica atual: onde entra o pecado?

  1. AdilsonVieira disse:

    Belo artigo,mas polemico para muitos cristão RADICAL que vê o pecado em tudo e em todos,concordo com as colocações pois acredito que o ato sexual na vida de um casal verdadeiro com as bençãos do PAI CELESTE é um pedaço do prazer e felicidade que vamos encontrar no CEÚ.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

code