O verdadeiro amor não resiste à malícia

A experiência acumulada de investigação da natureza humana obriga a conclusão inquietante da fragilidade do amor, que perde conteúdo com o desgaste da impureza sexual, o que não acontece com o Amor de Deus.

Num filme extraordinário, lançado em 1989, uma realidade sobressai com letras garrafais, calando a voz de uma sociedade corrompida e sem rumo, cuja devassidão trouxe a reboque a perda da capacidade de amar, não apenas pela incapacidade dos protagonistas no jogo do amor, mas pela própria inibição deste para estripulias e desordens desintegradoras do caráter. O filme se chama, na versão exibida no Brasil, “Sexo, mentiras e videotapes”(*), e sua ficha técnica deve ser consultada NESTE link para familiarizar o leitor com a obra referida.

Estrelado por James Spader (como Graham Dalton); Andie MacDowell (como Ann Millaney); Peter Gallagher (como John Millaney); e Laura San Giacomo (como Cynthia Bishop), o filme não tem nada de cômico, pelo contrário, constitui um drama pesado e até certo ponto “depressivo”, mas que carrega uma história absolutamente plausível, se é que não foi baseada num fato real, altamente ilustrativo para as lides de uma agência de casamento como a nossa Casamento-a-Três.

O enredo “traduz” direta e indiretamente a história de um homem jovem (entre os 30 e os 40 anos), cujo passado desregrado aparentemente lhe rendeu uma patologia sexual das mais incômodas (a impotência sexual) e pela qual o mesmo quase se perde no destino inexorável das almas deste mundo, cuja felicidade, sem a amizade de Deus, agoniza entre a busca do orgasmo e sua alma gêmea, sendo ambas um labirinto angustioso de idas e vindas, na escuridão e no desespero.

Graham Dalton, personagem interpretado por um James Spader, ainda belo e cativante por suas feições “angelicais” (que vieram a calhar muito bem com a história real), viveu um desastre amoroso objeto do enredo, e por causa dele teve a mente afetada de tal modo que perdeu toda a capacidade de ereção, passando a “gozar a vida” apenas na missão de entrevistar mulheres, perguntando a elas sobre como sentem o orgasmo e o sexo, e gravando suas entrevistas em “videotapes” que lhe davam alento e prazer pelo resto de sua vida.

As entrevistas configuram de fato uma ótima pedida para quem sofreu um trauma como o dele, uma vez que afeta diretamente a parte central de seu problema, oferecendo o “ânimo epitelial” que a sinceridade das mulheres – daquelas em particular – é capaz de atiçar no imaginário erótico masculino (aqui vai uma dica para os casais bem casados: que tal conversarem sobre como SENTEM o orgasmo nas várias situações onde ele ocorreu ao longo de seu relacionamento? – E se o casal puder ouvir os depoimentos de outras mulheres, a ilustração poderá mesmo obrar milagres!).

Todavia e contudo, o destino reservava um outro desfecho para o infeliz mancebo que não mais contava com sua virilidade e autoconfiança sexual, fazendo com que ele – e quem quer que sofra deste mal – fosse “definhando” a cada dia, perdido em sua ontologia golpeada de morte, em sua parte mais sensível, aquela que mais lembrança traz da visão beatífica do Paraíso. Incapaz de satisfazer a si e a qualquer mulher em geral, isolou-se forçadamente de sua vida social e quedava-se envergonhado em sua solidão com as filmagens das entrevistadas, como um masturbador que perde sua juventude no banheiro e sua saúde na palma das mãos (só que ele não se masturbava, pois não conseguia mais ter uma ereção).

E a vida foi passando, passando e passando, e as entrevistas iam crescendo em número e qualidade, pois as mulheres, intuitivas como são, iam a cada dia percebendo o real problema omitido por seu entrevistador, e por isso as “confissões” de orgasmos ficavam cada vez mais “ousadas e safadas”, para dizer o mínimo. Talvez até envolvessem algum interesse em “salvar” aquele homem, e de fato ele tentou algumas vezes com algumas, mas nada mudou a sua inexorável decepção.

Até que uma certa mulher (pimba!), chegou e calhou direitinho na exata medida de sua fantasia perdida, e, a partir dela (da fantasia), a saúde sexual de Dalton recuperou-se plenamente, mas claro, nunca igual ao que era antes do trauma! A fala calma, a sinceridade cristalina, o ar de santidade (sim, santidade), e a fisionomia também “angelical” de Ann Millaney (a bela Andie MacDowell) fizeram o seu papel salvador, dando a Dalton aquele encontro consigo mesmo, que é a maior alavanca para a plena atividade sexual, sobretudo do macho.

Como um mero instrumento para a fantasia erótica que guardava a chave-mestra da ereção qualificada, mas também sendo um instrumento ideal por ter em si uma cópia quase idêntica da mesma fantasia, Ann chegou no momento certo do destino de uma alma infeliz. Assim, numa entrevista necessária, mas até certo ponto desnecessária, o casal acabou se envolvendo numa conjunção espiritual e sexual sem fim, onde se vê o gravador da entrevista ser chutado e deixado de lado, bem como a sua grande coleção de entrevistas até então usadas como “remédios insípidos”, além de virtualmente inúteis para uma ereção que dependia da fantasia realizada.

O casal de personagens desfila uma cópula absolutamente bela para uma cena da Sétima Arte, sem nenhum apelo barato ao sexo explícito, mostrando que seu roteirista e diretor (Steven Soderbergh) não queria, de fato, a mera exploração sexual agradável ao IBOPE, mas sim deixar uma mensagem por demais espiritualizada na Ciência do Amor. E é esta mensagem que vamos investigar agora.

Fala-se com precisão de uma Ciência do Amor, porque o amor é de fato uma ciência, no sentido de que precisa de um aprendizado teórico-prático dos mais exigentes, uma vez que exige rigores bem no meio da difícil convivência humana, e ainda afugenta-se sem adeus na negação de suas exigências, tal como um menino malcriado que birra com seus pais por um mero brinquedo de uma cor diferente daquela por ele sonhada. É uma teima até ranzinza como a de uma ave melindrosa, que abandona os próprios filhotes se alguém pelo menos chegar perto de seu ninho! E pior, é o caso de toda a sua energia vital, aparentemente dependente de uma birra, estar de fato dependente de uma perfeita ordem para não desintegrar-se, como os tanques de combustível de um foguete exigem que TUDO esteja perfeito para levantar a nave, perfeito em seu corpo e perfeito em todas as ações dos técnicos de terra para fazê-lo alçar voo.

Ou seja: o amor tem que ser perfeito em si mesmo, e em tudo o que lhe diz respeito, e até nos comportamentos que pretendem despertá-lo; do contrário, nem despertará, e se despertar não será amor! Eis aqui a razão de tanta gente errar nesta matéria, e de tanta gente procurar o amor em vão, e de tanta gente confundir amor com tesão e vice-versa, expondo às claras a triste realidade anímica da criatura humana separada de Deus.

Isto posto, parece que o amor nos obriga à conclusão única e peremptória: ele é tão santo que JAMAIS poderá ser abrigado por um coração não-santo, e por isso estava certo o Pr. Richard Foster ao dizer que “não existe amor no mundo”. Por isso, dedução óbvia, somente o coração santo (o coração divino), pode sentir e dar amor, e nós morreremos à míngua nesta triste visão da morte sem amor, o insípido destino da frustração eterna!

De qualquer modo, mesmo sabendo que o Amor em si é algo inalcançável pelo coração humano, podemos admitir que há algumas coisas que trabalham para dificultar o amor em nós, e esta Agência “Casamento-a-Três” elege a depravação sexual como o maior inimigo do Amor verdadeiro. Neste sentido, o filme Sexo, mentiras e videotapes vem a calhar com perfeição neste raciocínio, porque seria impossível à Humanidade encontrar outra linguagem capaz de traduzir este drama anímico do Homem em sua eterna busca da reconciliação com Deus. Poder-se-ia usar as seguintes palavras nesta tradução: “Quem quiser o Amor (representado pelo personagem “brocha” do filme), vai ter que RENUNCIAR à malícia representada pelo personagem que põe o pênis dentro do buquê de flores! (o cara chamado John Millaney (Peter Gallagher)”. Porquanto a imoralidade, a malícia sensual e a exploração do sexo como mero instrumento do prazer operam na direção oposta do Amor verdadeiro, e Deus não moverá uma palha para alterar as coisas para o lado dos depravados, porque entende que há uma deliberada escolha da malícia como fonte de prazer, menosprezando o Amor como capaz de recompensa superior!

De fato, CS Lewis e outros gênios cristãos nos mostram que a perseguição doentia pelo prazer sexual leva à redução da recompensa do sexo, e o indivíduo perseguidor do prazer obterá cada vez menos recompensa pela sua busca, tal como o viciado em droga precisará cada vez de mais droga para alcançar o estado “nirvânico” das primeiras experiências, e cada nova droga lhe dará um prazer cada vez mais fraco, obrigando-o a doses cada vez maiores e ao final, a overdose mortal.

Em entrevistas que nós mesmos fizemos nesta Agência, ficou claro que os homens que tiveram sua adolescência e juventude toda levada na busca de cópulas sem fim, reconheceram enfrentar problemas de ereção e ejaculação precoce com muito mais frequência do que jovens que dedicaram suas vidas a estudos e à religião, e houve mudanças para pior até na “qualidade” dos orgasmos na meia idade. Muitos deles contaram sentir mudanças até na pele do pênis, no tempo de ereção, na quantidade de esperma ejaculado, na inconstância da ejaculação, sem falar nos que revelaram flacidez na pele, dores estranhas, desconforto nos testículos – antes e depois das cópulas – e até diferenças na micção, devido a alterações imperceptíveis no interior da uretra.

É claro que a Medicina também procura uma explicação para tudo, mas não pode abandonar de vez a intuição dos médicos para entender tais problemas; porém a maioria desses médicos (que também agia “desregradamente” na juventude) não atribui aos seus excessos os efeitos sentidos na maturidade, e até lucram com interpretações diferentes, pois com elas podem conquistar mais clientes e vender mais remédios de farmácias “apadrinhadas”. Neste caso, somos obrigados a recorrer a outros estudiosos da sexualidade humana, inclusive a outras áreas que nela opinaram, como espiritualistas, teólogos, pastores, filósofos e psicólogos cristãos, todos de orelha em pé na investigação dos estranhos efeitos da maturidade no desempenho sexual, sobretudo masculino.

Enfim, é impossível não extrair daí a óbvia resposta, a qual obriga a ver que a Humanidade se encontra no meio de uma encruzilhada angustiante e autodestrutiva, tendo que optar entre um frágil “amor casamenteiro” e o prazer sexual, iludida pela falácia demoníaca de que o orgasmo é coisa da Terra e não do Céu! Aliás, a falácia chega até a mentir mesmo, dizendo que o amor não dá prazer, exceto se une os corpos numa cama, quando na verdade o Matrimônio cristão é um turbilhão de prazeres constantes, no meio dos quais se encontra o orgasmo, como mero “intervalo” e coroamento dos inúmeros outros prazeres planejados por Deus para a felicidade integral do casal.

Sim, o verdadeiro Amor não resiste à malícia. Toda a experiência acumulada pelos estudiosos da natureza humana nos obriga à conclusão de que o Amor divino, enquanto habitando num planeta conspurcado, perdeu boa parte de sua estrutura e proteção espiritual, não sendo mais capaz de garantir uma “recompensa ontológica hipersensitiva”, e assim tendendo a ser substituído ou misturado aos prazeres carnais, que não conseguirão encontrá-lo. Os homens e mulheres que ainda tenham, em sua jornada terrestre, o desejo do Amor Infinito, tenderão à eterna frustração de sonhar com ele e não senti-lo, ou de morrer com seu sonho sufocado no peito, até que vejam, com os próprios olhos arrasados pelo tempo perdido, o que acontece com os casais casados no Céu.

_______________________________________________________

(*) – As duas versões que encontramos no Youtube são ruins, pois uma não deixa ler a legenda por completo (a tela fica achatada), e outra não retira um letreiro que aparece sobre a legenda. Se o leitor quiser ver o filme de modo perfeito, terá que comprar o DVD ou um canal pago de filmes online.

 

Sobre John Valente

Prof. John Valente - Especialização: relacionamento conjugal cristão; Formado em Administração de Empresas e Teologia, especializou-se em Ciências da Religião, e participou de diversos cursos e treinamentos na área de relacionamento conjugal, inclusive o Seminário de Relacionamento Afetivo da “Agência de Casamento” que lhe apresentou à sua esposa.
Esta entrada foi publicada em Casamento. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Uma resposta a O verdadeiro amor não resiste à malícia

  1. FABIANO disse:

    Muito bom Artigo,Excelente.Parabéns pelo Blog.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

code